sexta-feira, 24 de junho de 2011

Damn you, Ricardo Reis.


Nunca gostei de Pessoa, principalmente de Ricardo Reis... Para mim é o pior dos heterónimos. 

Mas hoje estava a escrever na minha secretária quando me lembrei de um poema dele "Vem sentar-te comigo, Lídia", em que uma estrofe dizia:

"Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças."

O que ele pretendia dizer com isto era que não queria tocar em Lídia para não sofrerem saudade do toque, do prazer, de uma relação física, pois a ilusão é menos custosa que a realidade num processo de esquecimento. 

Sinceramente... Não concordava com ele por nada deste mundo. Achava que acolhermo-nos nos braços de quem amamos era como chegar a casa depois de um longo dia de trabalho. Aquele conforto, paz, o facto de sermos nós por completo. Para mim, Ricardo Reis era um louco por não partilhar estes momentos de carinho com a mulher que amava, principalmente sendo reciproco. Não seria preferível sofrer um pouco mais depois, mas poder ser feliz em plenitude enquanto vivo, aproveitando todos os momentos? Talvez sofresse mais a evitar toca-la - sim, porque custa! -, talvez quando ela o perdesse fosse mais doloroso não haver momentos felizes para relembrar como dar as mãos, como beijos no nariz, como fazer amor, e apenas aqueles de contenção, de sofrimento. 

Na verdade, o toque deixa muitas mais saudades que a ilusão. O cheiro, os movimentos, o calor. Mas vale muito, muito mais a pena. 

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